O mercado de petróleo atravessa um dos momentos mais voláteis desde a década de 1970. O cenário atual evoca paralelos com o primeiro choque do petróleo, em 1973, quando a Opaep (formada pelos membros árabes da Opep) decretou embargo aos países ocidentais que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur, quadruplicando o preço do barril.
Para o Brasil, o impacto foi particularmente severo. À época, o País importava cerca de 80% do petróleo que consumia, vulnerabilidade que se traduziu em duro golpe na balança comercial, na escalada da dívida externa e na aceleração inflacionária. Encerrou o chamado “milagre econômico”.
No entanto, em vez de se resignar, o Brasil transformou o problema em motor de inovação. Nasceu o Proálcool, um projeto para substituir a gasolina pelo etanol de cana-de-açúcar. Simultaneamente, a Petrobras deu um salto tecnológico ao intensificar a exploração na plataforma continental.
Hoje, assistimos a um outro choque, de novo alimentado pela instabilidade no Oriente Médio. Cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta cruza o Estreito de Ormuz. Soma-se a isso o risco de destruição de infraestruturas energéticas na região. Desta vez, o Brasil enfrenta a tormenta com soberania energética. É líder mundial em biocombustíveis e detentor de tecnologia de ponta na exploração de petróleo em águas profundas.
Os desafios não desaparecem. O repasse da alta internacional aos preços pressiona a inflação, pois ainda importamos derivados. O governo zerou o PIS/Cofins do diesel, com uma subvenção e um imposto de exportação, o que deve amenizar o impacto inflacionário da alta do preço do diesel pela Petrobras. E propôs redução do ICMS aos Estados.
As exportações brasileiras para os países do Oriente Médio também podem ser afetadas por um cenário de conflito prolongado.
Os conflitos do Oriente Médio representam uma volta à realidade: os combustíveis fósseis são peça-chave para a economia global, o que dá vantagem a países produtores como o Brasil.
Mesmo com os avanços na transição para uma energia limpa, o petróleo ainda tem o poder de desestabilizar a economia, com impactos nas cadeias de produção, na inflação e na taxa de juros e desabastecimento.
Para o Brasil, o registro central permanece. Na crise de 50 anos atrás, convertemos vulnerabilidade em vantagem competitiva. Podemos provar mais uma vez que transformar crise em oportunidade é a nossa melhor versão.
Autor/Veículo: O Estado de São Paulo


