Uma das apostas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para mitigar os efeitos para as empresas brasileiras das ameaças de novo tarifaço por parte dos Estados Unidos é redirecionar os produtos para outros países. Essa estratégia, porém, tem efeitos limitados em alguns setores, como máquinas e equipamentos, têxteis e pescados. Diferentemente de commodities, a demanda por esses itens tem variações relativas a especificações do comprador ou preferências culturais. Além disso, o mercado americano costuma absorver produtos de maior valor agregado. Nesta semana, a conclusão de duas investigações do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR) na sigla em inglês recomendaram a adoção de tarifas de importação adicionais para produtos comprados do Brasil. A primeira, vinculada a um processo específico contra práticas “desleais” brasileiras que prejudicam o comércio dos EUA, sugere a aplicação de uma taxa de 25%. De acordo com Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), essa cobrança deve afetar 21% da pauta exportadora para os EUA. A segunda, relacionada a uma investigação contra 60 países sobre falhas na proibição de importação de produtos fabricados com trabalho forçado, atinge o Brasil com uma tarifa de 12,5%. Ambas têm exceções, como petróleo, aeronaves, carnes, café e algumas frutas, e estão sujeitas à consulta pública. Se confirmadas, devem começar a valer em julho. No mesmo mês, deve terminar o prazo de uma tarifa global de 10% adotada pelo governo de Donald Trump em fevereiro, após a Suprema Corte americana derrubar a taxação aplicada no ano passado com base em uma lei de emergência nacional, que, no caso do Brasil, impunha uma cobrança de 50%. Lula afirmou que quer negociar com o governo de Donald Trump, como vem fazendo desde o ano passado, quando foram anunciadas as primeiras tarifas. Os setores empresariais também vão participar do processo, subsidiando o governo federal e argumentando junto às investigações americanas. Mas o presidente disse que, se os EUA não quiserem comprar os produtos brasileiros, “não vai ficar chorando”. — Nós não vamos ficar chorando. Nós vamos procurar outros parceiros. Se ele (os EUA) não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar A gente não vai ficar reclamando. Se não quiser investir aqui, nós vamos procurar outro — afirmou na abertura da reunião ministerial nesta semana. O economista João Carmo, da 4Intelligence, reconhece que o tarifaço do ano passado deixou claro que o Brasil tem grande capacidade de redirecionar exportações, mas afirma que, para alguns setores mais dependentes do mercado americano, como de máquinas e equipamentos, agroindústria e têxtil, o impacto das novas taxas deve ser maior. — Eu não duvido da capacidade que o país tem de redirecionar, por isso esperamos que o impacto na balança não seja tão grande. Mas setorialmente é mais difícil, setores que têm menor participação e menor poder vão ter mais dificuldade. Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI), acrescenta que a diversificação não é uma alternativa ao mercado americano, mas é complementar. Até porque os EUA são líderes em compras de alto valor agregado do Brasil, de indústrias de média e alta intensidade tecnológica. Segundo a CNI, a cada R$ 1 bilhão exportados para os EUA, são criados 24,3 mil empregos no Brasil. Para destinos asiáticos, a média é de 16 mil empregos. — Pela qualidade de exportações com os EUA, não podemos nos dar o luxo de virar a página e não trabalhar para eliminar essas barreiras que estão prejudicando as exportações, de alguma maneira, já prejudicaram, já temos evidências. A prioridade é eliminar as barreiras enquanto se trabalha em frentes complementares de diversificação de parcerias que sejam capazes de trazer essa complexidade. Um estudo do BNDES evidencia que, na experiência de taxação do ano passado, o redirecionamento das exportações para outros países minimizou os impactos sobre o resultado agregado da balança comercial brasileira, mas não reverteu os prejuízos de todos os setores. Em 2025, as vendas para outros países cresceram 3,5% ante 2024, considerando o valor, mesmo com a queda de 6,6% dos embarques para os EUA. “Tal descompasso evidencia a importância de novos mercados nas relações comerciais entre o Brasil e o resto do mundo”, diz o estudo. Analisando o período de agosto, quando entraram em vigor as tarifas, a dezembro de 2025, houve aumento de 8% das exportações do Brasil para o mundo, em contraste com a redução de 21% de vendas para os americanos. Alguns segmentos, porém, não conseguiram escapar das perdas. O setor de madeira, carvão vegetal e obras de madeira teve queda de 50% nos embarques para os EUA e de 22% para o mundo. Em peixes e crustáceos, o recuo foi de 53% e 18%, respectivamente. No caso de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e suas partes, houve baixa de 10% nas exportações para os EUA e de 4% para o mundo. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), Eduardo Lobo, afirma que novas alternativas de mercado foram abertas no ano passado, para rodar o estoque, mas o valor da venda foi abaixo do normalmente praticado. Além disso, foi mantida alguma parcela da exportação para os EUA, só que com a margem cortada. Desta vez, para piorar, os pescados são a única proteína fora da lista de exceções sugerida pelo USTR. — Essa taxação coloca o setor novamente sem competitividade para os EUA, em relação aos competidores da América Central e o Caribe. Diferentemente, de todos os países que foram taxados pelos EUA, a gente tem 37,5%, a maioria dos países vai ter uma taxação de 12,5%. Ainda não temos certeza se a tarifa de 10% (hoje vigente) vence ou se soma. Pode ser 47,5%, muito parecido com os 50% do ano passado. Lobo diz que vai pedir para o governo brasileiro a inclusão novamente no Plano Brasil Soberano, que reúne medidas para mitigar o impacto financeiro de empresas afetadas pelas cobranças tarifárias dos EUA e também pela guerra no Oriente Médio. O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas