A safra de cana-de-açúcar 2026/2027, que começa oficialmente este mês, deve crescer 3,15%, atingindo um total de 677,7 milhões de toneladas. Segundo a consultoria Safras & Mercado, que elaborou a estimativa, esse avanço no campo será acompanhado por uma mudança estratégica nas usinas: a produção de açúcar deve recuar mais de 7%, enquanto a de etanol (cana e milho) deve disparar para cerca de 43 bilhões de litros, ante os atuais 37 bilhões de litros.
A consultoria avalia que as usinas aumentarão a produção de etanol por causa da maior demanda prevista para este ano, consequência do aumento do percentual da mistura do produto à gasolina (de 27% para 30%) determinado pelo governo em agosto do ano passado. A expectativa da consultoria é que a mistura suba para 35% no fim do terceiro trimestre deste ano.
O governo já iniciou os testes técnicos para ampliar esse percentual. O Brasil, atualmente, é o país que mais adiciona álcool à gasolina no mundo, o que reduz a dependência do combustível importado, explicam os analistas do setor.
— O aumento do percentual de etanol à gasolina visou reduzir emissões de poluentes e diminuir a dependência de combustíveis fósseis. A forte possibilidade de a mistura chegar a 35% ainda este ano e o preço mais alto do etanol hidratado em relação ao açúcar levarão as usinas a incrementar a oferta de etanol anidro e hidratado na próxima safra — explica o analista e consultor de açúcar e etanol da Safras & Mercado, Maurício Muruci.
Ele lembra que cada ponto percentual a mais na mistura de etanol anidro à gasolina resulta em elevação na demanda de 920 milhões de litros a cada 12 meses.
Preço subiu só 1,2%
Com a guerra no Oriente Médio, que fez a cotação do barril de petróleo saltar de US$ 70 para picos de até US$ 120 (fechou na sexta-feira a US$ 95,20), o etanol brasileiro é apontado como um “colchão” que ajuda a amortizar a escalada de aumentos. Enquanto nos Estados Unidos o preço da gasolina aumentou cerca de 30%, no Brasil a alta foi de 7,8%, até a última sexta-feira, desde o início do conflito.
O mesmo aconteceu com o diesel: os americanos estão pagando quase 40% a mais pelo produto, enquanto no Brasil o aumento foi de 23,2%. Especialistas apontam que a mistura de etanol à gasolina e de biodiesel ao diesel em uma proporção de 15% ajuda a segurar aumentos mais expressivos aqui.
— O Brasil está numa situação mais cômoda que outros países para enfrentar o cenário de guerra. A possibilidade de misturar 30% de álcool anidro à gasolina ou abastecer o carro diretamente com etanol hidratado acaba aliviando o preço final dos combustíveis, porque esse biocombustível é mais barato, embora tenha subido de preço também acompanhando a alta da gasolina e do petróleo — explica o consultor José Vicente Caixeta, diretor da cAIxeta Inteligência Logística.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que, nos postos pesquisados em todo o país, o preço médio do etanol estava em R$ 4,62 na última sexta-feira. Trata-se de uma elevação de 1,2% desde o início do conflito no Irã. Em São Paulo, principal estado produtor, consumidor e com mais postos avaliados, o preço chegou a cair 0,44%, para R$ 4,52 o litro.
Mais barato que os combustíveis fósseis, ecologicamente correto, o etanol brasileiro tem servido de exemplo para outros países. Índia, Vietnã, México e Japão estudam aumentar o percentual de etanol à gasolina, replicando o modelo brasileiro. Na semana passada, o governo argentino autorizou a mistura de até 15% de etanol à gasolina numa tentativa de frear aumentos elevados do combustível fóssil.
A revista britânica The Economist afirmou, no fim de março, que o Brasil possui uma “arma secreta” contra os choques do petróleo: sua sofisticada indústria de biocombustíveis. Segundo a publicação, poucas nações estavam tão preparadas para uma crise energética quanto o Brasil.
Graças a décadas de investimento, disse a revista, o país consolidou a tecnologia flex fuel (veículos cujo motor funciona a gasolina ou etanol), a qual permite que os consumidores migrem para o álcool quando a gasolina encarece. Esse ecossistema ajuda a frear o repasse da alta do petróleo para o consumidor final, ressaltou a Economist.
Etanol de milho
O programa do álcool, lançado em 1975, evoluiu com sucesso, dizem analistas, e de fato reduziu a dependência do petróleo estrangeiro. Atualmente, a frota de carros flex no Brasil ultrapassa 40 milhões de unidades, representando mais de 80% dos veículos leves que circulam no país.
Introduzida em 2003, essa tecnologia tornou o Brasil o maior mercado mundial de veículos flex. Em nenhum outro país milhões de motoristas têm a opção de abastecer o tanque de seu carro com etanol 100% puro (hidratado).
Além do etanol de cana-de-açúcar, o Brasil avançou rapidamente em outra frente de produção: o etanol de milho. Tornou-se o segundo maior produtor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, e essa ascensão meteórica aconteceu em pouco mais de uma década. Com custos de produção até 40% menores que o etanol da cana, o setor deve atingir 10 bilhões de litros já na safra 2025/26.
Diferentemente da cana, o milho permite a produção durante todo o ano, sem períodos de entressafra, o que garante estabilidade à oferta.
— O fato é que o Brasil não precisa ficar à mercê de uma guerra no Oriente Médio para garantir combustível para sua frota de veículos leves. A produção total de etanol brasileiro, somando milho e cana, já está na casa dos 37 bilhões de litros e caminha para ultrapassar 40 bilhões de litros no próximo ciclo 2026/27. O etanol é a resposta doméstica, renovável e soberana ao que estamos vendo acontecer no Estreito de Ormuz — diz o diretor de Relações Governamentais e Sustentabilidade da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Thiago Skaf.
O setor foca tanto no mercado interno quanto na futura demanda global por combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e navegação, a longo prazo.
Skaf lembra que a partir de uma tonelada de milho cultivado na segunda safra anual (no mesmo solo em que se cultiva a soja meses antes) é possível obter 450 litros de etanol, 212kg de grão seco de destilaria (utilizado na nutrição animal), além de 19kg de óleo com diversas aplicações.
Apesar de ser grande produtor e exportador de petróleo, o Brasil ainda depende de importações para suprir sua demanda interna por combustíveis — e portanto, lembram os especialistas, não está imune ao choque do petróleo causado pela guerra. Dos 65 bilhões de litros de diesel usados anualmente por caminhões para transporte rodoviário no país, 30% são importados.
Exportando tecnologia
Atualmente, o país importa petróleo dos Estados Unidos, da Arábia Saudita, da Rússia e da vizinha Guiana. No ano passado, comprou mais de 3,6 bilhões de litros de gasolina no exterior. Em 2025, o etanol teve 37,1 bilhões de litros vendidos, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Embora fique um pouco atrás do diesel e da gasolina em participação total no consumo, sua presença em todos os postos de gasolina oferece aos brasileiros uma rede de segurança psicológica e econômica, avaliam os especialistas.
Luciane Chiodi Bachion, sócia e pesquisadora sênior da consultoria Agroicone, observa que o Brasil já iniciou movimento de transferência de tecnologia de produção de etanol para Índia, e há conversas com o México. Ela diz que, embora o programa brasileiro de produção de álcool tenha mais de 50 anos, a situação agora mudou, com a busca de descarbonização pelos países.
— O Brasil já foi reconhecido por ter a matriz energética mais limpa do mundo e tem histórico de produção de etanol. Agora temos um cenário novo, de transição energética, petróleo caro por causa da guerra, o que amplia o interesse. O Brasil ainda exporta pouco etanol (1,6 bilhão de litros em 2025), então podemos exportar tecnologia industrial e mais etanol também — diz a pesquisadora.
Ela lembra que ainda existem, em muitos países, barreiras regulatórias para a produção de biocombustível a partir de grãos ou cana, com justificativa de garantir a segurança alimentar.
Antonio Jorge Martins, coordenador dos cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que o Brasil pode ser exportador de tecnologia, mas pondera que, além das barreiras regulatórias, o etanol depende de escala para ser adotado em outros países — situação diferente do Brasil, que já conta com frota flex. Ele diz que, embora haja países que já adotem a mistura, há nações que nem isso fazem:
— A questão básica é a escala de uso do etanol que torne viável seu uso em outros países e qual a estratégia eles podem usar para gerar esse potencial. Por enquanto, os países não vão abrir mão do petróleo e do combustível derivado do petróleo, porque se trata de uma commodity estratégica.
Autor/Veículo: O Globo


