Brasil leva ofensiva dos biocombustíveis à Alemanha em meio a revisão regulatória

Em um momento decisivo para o futuro dos combustíveis renováveis na Europa, o governo brasileiro e empresas como a Be8 intensificaram, na feira de Hannover, na Alemanha, um esforço coordenado para provar a sustentabilidade e a competitividade dos biocombustíveis produzidos no Brasil.

A ofensiva ocorre em paralelo à revisão das regras alemãs para combustíveis, especialmente etanol e biodiesel — chamados de primeira geração —, e em um cenário de escassez de combustíveis fósseis, devido à guerra no Oriente Médio, que levou, inclusive, a alemã Lufthansa a anunciar o cancelamento de vinte mil voos até outubro.

Neste ano, o Brasil foi o país parceiro da maior feira industrial do mundo, que contou com a presença do presidente Lula (PT) e do chanceler alemão Friedrich Merz.

O protagonismo brasileiro no evento serviu como vitrine para uma agenda que mistura diplomacia, tecnologia e disputa regulatória.

Lula critica barreiras europeias

A passagem de Lula pela feira teve forte simbolismo. No estande da ApexBrasil, o presidente subiu em um caminhão da Mercedes-Benz abastecido com o BeVant, biodiesel desenvolvido pela Be8 que pode substituir 100% do diesel de petróleo sem adaptações em motores convencionais.

O gesto reforçou uma mensagem política de que o Brasil quer derrubar barreiras europeias contra seus biocombustíveis.

Em discurso no Encontro Econômico Brasil-Alemanha, Lula defendeu a adoção de biocombustíveis brasileiros como estratégica para a descarbonização europeia.

“O nosso etanol, de cana-de-açúcar, produz mais energia por hectare plantado, tem uma das menores pegadas de carbono do mundo e reduz emissões de até 90% em relação à gasolina”, disse.

O presidente também destacou os dois caminhões movidos a biodiesel exibidos nos pavilhões da Be8 e da Volkswagen Brasil.

“O nosso biodiesel mostrou potência porque a aceleração é equivalente ao diesel convencional com uma redução de 99% nas emissões do tanque à roda”.

Lula aproveitou para criticar diretamente o que classificou como distorções na avaliação europeia sobre o setor.

“Criar barreiras adicionais ao acesso de biocombustíveis é contraproducente tanto do ponto de vista ambiental quanto do energético (…) É preciso ainda combater narrativas falsas a respeito da sustentabilidade da nossa agricultura”.

Teste em solo alemão

O Brasil levou dois exemplos práticos. Um deles foi um caminhão da Volkswagem produzido e desenvolvido por engenheiros brasileiros na fábrica da montadora no Rio de Janeiro.

O modelo chamado de B100 Flex pode rodar com diferentes tipos de combustíveis, incluindo diesel convencional, biodiesel puro (B100) e HVO (diesel renovável).

O segundo exemplo veio de outra montadora alemã, um caminhão Mercedes-Benz Actros abastecido com BeVant, que foi testado no campo de provas da Daimler Truck, em Wörth, e exibido na feira após rodar em estradas do Alemanha.

Os resultados mostraram desempenho equivalente ao diesel convencional e potencial de redução de cerca de 99% das emissões no conceito tanque à roda.

A validação foi reforçada por testes conduzidos pela SGS, certificadora alemã que demostraram uma superioridade do biocombustível na comparação com outros vinte combustíveis do mesmo tipo.

Biocombustível vira “bandeira” política

Em entrevista à agência eixos, durante a feira, o presidente da Be8, Erasmo Carlos Battistella afirmou que o produto ganhou papel central na disputa regulatória.

“O BeVant teve uma função muito importante defendendo o mercado dos biocombustível e está servindo como uma bandeira para demonstrar aqui na Europa que o nosso biocombustível, além de ser muito sustentável, reduzir as emissões, ele é muito correto no que diz respeito a esse balanço entre produzir alimento e produzir energia”.

A estratégia da companhia inclui ampliar presença no continente.

“Já estamos aqui na Europa com empresas de negócios, com uma planta inicial na Suíça, e temos uma estratégia, obviamente, de estar próxima da Europa e buscar oportunidades de crescimento aqui”.

Para Camilo Adas, diretor de Transição Energética da Be8, o impacto da demonstração foi imediato.

“O Brasil, de fato, está sendo visto como a solução do biocombustível nesse contexto. Tem tudo para que o mercado europeu e a própria Alemanha comecem a abrir as portas para esse debate”.
Alemanha revisa regulação

O avanço brasileiro ocorre em um contexto regulatório complexo na Alemanha. O governo de Friedrich Merz defende uma abordagem tecnologicamente neutra, inclusive com abertura para a continuidade de motores a combustão após 2035.

A estratégia de Berlim tem sido apostar em um mix de biocombustíveis avançados, hidrogênio verde e eletrificação, preservando indústria nacional.

No fim do ano passado, o gabinete alemão apresentou um projeto de lei que aumenta o uso de matérias-primas agrícolas — como alimentos e rações — na produção de biocombustíveis,

O texto foi aprovado na última sexta (24/4) pelo parlamento.

A participação atual dos biocombustíveis convencionais poderá saltar de cerca de 4,4% para 5,8% até 2032 — um avanço deliberadamente moderado.

O próprio Ministério do Meio Ambiente alemão justificou a calibragem como forma de evitar pressões sobre o uso da terra e a competição com a produção de alimentos.

O Bundestag, no entanto, elevou a meta de redução da intensidade de carbono dos combustíveis para 65% até 2040, acima dos 59% inicialmente propostos inicialmente pelo chanceler.

A medida foi aprovada com apoio dos partidos governistas CDU/CSU, liderado por Friedrich Merz, e SPD, enquanto oposição — incluindo Verdes e A Esquerda — votou contra, em parte por considerar que o texto ainda abre espaço excessivo para combustíveis baseados em culturas agrícolas.

Ao mesmo tempo, o desenho regulatório favorece explicitamente outras rotas tecnológicas.

Os combustíveis renováveis de origem não biológica (RFNBOs), como o hidrogênio verde e seus derivados, terão expansão mais acelerada, com participação mínima de 10% até 2040.

A legislação estabelece metas intermediárias — como uma obrigação de 1,5% já em 2030 — que, segundo o governo, devem destravar cerca de 2 GW de capacidade de eletrólise no país.

Já os biocombustíveis avançados, produzidos a partir de resíduos, terão sua cota praticamente multiplicada por nove ao longo do período, saindo de 1% em 2026 para até 9% em 2040.

Autor/Veículo: Eixos

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