A discussão sobre a redução da jornada semanal de trabalho, de 44 para 40 horas, pega o Brasil em um momento de pleno emprego, o que pode pressionar as contratações nas regiões mais produtivas do país: Sudeste, Centro-Oeste e Sul.
Nessas localidades o estoque de desocupados não consegue suprir a necessidade de reposição extensiva de mão de obra que a proposta vai gerar, caso seja aprovada pelo Congresso Nacional, no contexto atual de taxas de desemprego na mínima histórica.
Os efeitos da mudança são apontados pelo professor do Ibmec e CEO da Quantivis Analytics, José Ronaldo de Souza, que fez uma radiografia regional das consequências da medida.
Segundo ele, o principal efeito não é o corte de horas em si, mas a heterogeneidade regional do mercado formal de trabalho. O estudo mostra que o corte na jornada vai resultar na necessidade de contratação de 5,1 milhões de trabalhadores de postos equivalentes a 40 horas contra um estoque de 6,3 milhões de desocupados, ou seja, uma proporção alta do estoque.
No entanto, quando se analisa o mapa do trabalho por divisões geográficas, 35,6% dos estratos, sobretudo nas regiões Sul e Centro-Oeste, teriam demanda superior ao estoque.
— A reposição extensiva é mecanicamente inviável apenas com a mão de obra desempregada local — afirmou Souza.
O estudo considerou um universo de 28,9 milhões de trabalhadores formais com jornada semanal acima de 40 horas no principal vínculo. Considerando que esses trabalhadores equivalem a 28,3% dos ocupados e 45,5% dos formais, a jornada média desse grupo é de 47,1 horas por semana.
Também tem como premissa que a produtividade horária do trabalho se mantém constante, de modo que cada hora perdida precisa ser reposta.
— O ideal seria tentar primeiro medidas que induzam uma melhora de produtividade e, em um segundo momento, quando houver folga no mercado de trabalho e menor taxa de juros, flexibilizar a jornada de forma paulatina — disse Souza.
Para analisar os efeitos em todo o país, o levantamento traça um mapa com 146 áreas para mostrar onde estão os trabalhadores com carga acima de 40 horas semanais e, portanto, as áreas que serão mais pressionadas.
Entre elas, o eixo Sinop/Sorriso/Rondonópolis (MT) e os estratos norte e leste do estado, considerados economias agroindustriais. Outra área fica no estado de Santa Catarina, como Vale do Itajaí e localidades do cinturão suíno do Rio Grande do Sul e da produção de calçados.
Região Metropolitana de BH
Também se destacam o entorno metropolitano de Belo Horizonte, o triângulo mineiro e o sul de Minas Gerais, onde a base industrial, a mineração, o agro e os serviços são avançados.
O levantamento aponta também que a redução da jornada sem corte de salário vai gerar aumento médio do custo por hora formal de trabalho de 17,75%, podendo chegar a 22% nos segmentos de alojamento, alimentação, transporte, armazenagem e correio.
Corte de jornada pode atrair mão de obra, diz pesquisadora
Por outro lado, a economista Carla Beni Menezes de Aguiar, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), vê a redução da jornada semanal como uma forma de as empresas atraírem trabalhadores que estão fora do mercado no formato atual e poderiam ficar atraídas por vagas com duas folgas semanais garantidas, por exemplo.
Ela aponta empresas de setores intensivos em mão de obras, como o comércio e os serviços, que evidenciaram isso ao adotar voluntariamente a escala 5×2, elevando a atração de talentos e reduzindo a rotatividade nas posições.
— Eu diria que essa aprovação está atrasada porque temos vários exemplos, até redes de varejo, de supermercados com mais de 8 mil funcionários, que usam a escala 5×2, e eles estão com ganho de produtividade. As empresas que já fizeram estão contratando com maior produtividade e, mais importante, com menor rotatividade no emprego.
Autor/Veículo: O Globo

