O fim da escala 6×1, sem mudanças no modelo de contratação, pode piorar a escassez de mão de obra e pressionar a operação das empresas, afirma o presidente da Associação Paulista de Supermercados (APAS), Erlon Ortega. Ele diz que o setor supermercadista já opera com dificuldade para preencher vagas.
Hoje, afirma o executivo, o segmento emprega cerca de 700 mil pessoas no Estado de São Paulo, mas tem aproximadamente 35 mil vagas abertas, principalmente em funções operacionais, como reposição, caixa e açougue. Para Ortega, esse descompasso já reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho, que tende a se intensificar com a redução da jornada sem mecanismos de adaptação.
“As empresas não estão conseguindo nem completar o quadro atual. Se houver redução da jornada, a necessidade de contratação aumenta, mas a pergunta é: contratar quem?”, afirmou em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.
Na avaliação do executivo, o debate tem se limitado à redução da carga horária, de 44 para 40 horas, sem considerar a organização do trabalho. Segundo ele, a rigidez do modelo atual tem perdido aderência diante de um perfil mais diverso de trabalhadores.
“Essa discussão de 6×1, 5×2, às vezes está ultrapassada. A gente está olhando para o número de horas, mas não está discutindo o formato”, disse.
Ortega cita a composição da força de trabalho como exemplo. Cerca de 25% dos funcionários têm até 25 anos, grupo que tende a buscar jornadas mais flexíveis, muitas vezes conciliadas com estudo ou outras atividades. Ao mesmo tempo, cresce a participação de profissionais mais velhos retornando ao mercado: trabalhadores com 50 anos ou mais já representam mais de 10% do total no Estado, segundo dados da APAS.
Para o executivo, essa mudança ajuda a explicar parte da dificuldade de contratação e reforça a necessidade de modelos mais flexíveis. “Tem gente que não quer mais uma jornada rígida. Se o modelo não permite isso, essa pessoa vai buscar alternativas fora”, afirmou.
Nesse contexto, Ortega defende formatos mais flexíveis, como o modelo por hora, conhecido no setor como “horista”, além de uma adaptação mais ampla da jornada à realidade dos trabalhadores.
“Muita gente está na informalidade justamente pela flexibilidade. Se a gente consegue oferecer isso dentro de um modelo formal, com proteção, existe espaço para trazer esse trabalhador de volta”, disse.
Parte do setor já testa ajustes na jornada. Segundo Ortega, mais de 300 lojas no Estado vêm adotando modelos de 5×2, mantendo as 44 horas semanais, com jornadas diárias mais longas. A experiência tem permitido ampliar os dias de descanso sem perda de produtividade, ainda que com ajustes operacionais.
Apesar disso, a redução da carga horária, sem mudanças estruturais, tende a elevar custos em um setor intensivo em mão de obra. “Tem coisa que é matemática. Se você reduz a jornada sem ajustar o modelo, você aumenta a necessidade de contratação e eleva o custo”, afirmou.
O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou força nas últimas semanas, com pressão de centrais sindicais e parlamentares, mas segue sem avanço e sem previsão de votação no Congresso. As mobilizações do Dia do Trabalhador tiveram baixa adesão em São Paulo, indicando alcance ainda limitado da pauta.
O tema está em discussão no Congresso, com propostas que vão da redução da jornada à criação de novos formatos de contratação. Entre elas, a PEC 40/2025 é acompanhada pelo setor como alternativa para viabilizar mudanças sem impacto relevante sobre a operação.
Para Ortega, a forma como o debate vem sendo conduzido ainda não contempla os principais desafios do setor. “Precisamos discutir como o trabalho vai funcionar, não só quantas horas ele vai ter”, afirmou.
O cientista político, autor de Brasil no Espelho, livro que traz um raio-X profundo do brasileiro a partir de 10 mil entrevistas, lançado no fim do ano passado, Felipe Nunes, Quaest, afirma que o mercado de trabalho tem enfrentado uma série de mudanças estruturais. Segundo ele, quando o governo propõe regulação, jornada de trabalho e carteira assinada como conquistas, está falando para um eleitor que cada vez mais existe em menor proporção — e deixando de falar com uma multidão. /Colaborou Cristiane Barbieri
Autor/Veículo: O Estado de S.Paulo


